Dirceu Viana Jr.: os bastidores da criação dos vinhos do Neymar

O jogador Neymar Jr. chega ao mercado de vinhos com a Le Prince, marca brasileira que une o nome da Família Neymar à experiência de Dirceu Vianna Júnior, primeiro brasileiro e lusófono a conquistar o título de Master of Wine, uma das certificações mais prestigiadas do mundo do vinho.
Com mais de 30 anos de experiência no mercado internacional, esta é a primeira vez que Dirceu une seu nome a uma marca brasileira para desenvolver, assinar e validar tecnicamente todo o portfólio. A Le Prince nasce com a proposta de aproximar o vinho de novos consumidores, ampliar a relevância da categoria no Brasil e oferecer rótulos que combinam qualidade e credibilidade técnica em diferentes faixas de preço.
Durante o almoço de lançamento da marca dos vinhos do Neymar, realizado em um evento para a imprensa em São Paulo, Dirceu conversou com Thamy Laiz, sommelière do Reserva85, sobre os bastidores do projeto. Na entrevista, ele revelou como foram escolhidos os produtores e os vinhos, explicou a participação de Neymar nas decisões e destacou a importância do consumidor brasileiro na construção da linha. A conversa também abordou os desafios de consolidar a marca e os planos para as próximas safras.
Entrevista completa com Dirceu Viana Jr., co-desenvolvedor dos vinhos do Neymar.
Reserva85 — Quando você recebeu o convite para fazer a curadoria dos vinhos do Neymar, qual foi o primeiro desafio que enxergou?
Dirceu Viana Jr. — O primeiro desafio foi o tempo. Recebi o convite em outubro do ano passado e, inicialmente, pensei que não conseguiria aceitar. Minha agenda é muito corrida e um projeto como esse exige foco e dedicação. Depois, comecei a pensar melhor e reorganizei alguns compromissos. Percebi que tínhamos uma oportunidade de fazer algo interessante para o mercado de vinhos. Neymar tem uma conexão muito forte com o público jovem e, se ele conseguir atrair essas pessoas e eu fizer um bom trabalho com os vinhos, podemos contribuir para mudar alguma coisa no setor.
E do ponto de vista profissional? Trabalhar com uma marca associada a Neymar representou um desafio diferente?
Não necessariamente. Trabalho nessa indústria há décadas e já desenvolvi projetos com marcas conhecidas. Na Inglaterra, por exemplo, trabalho com o Manchester United e já assinei alguns rótulos específicos para eles. O que me interessou nesse projeto foi justamente a possibilidade de alcançar novos consumidores por meio da notoriedade de Neymar.
Como foi a escolha dos produtores parceiros? Qual foi o principal critério para selecionar os vinhos?
Cada vinho teve um processo diferente. Tenho mais de 30 anos de experiência na compra de vinhos e, em alguns casos, já sabia exatamente com quais produtores gostaria de trabalhar. Em outros, precisei degustar muitos vinhos até encontrar o que procurava, considerando qualidade, preço e perfil do consumidor.
No caso do Albariño, por exemplo, quando surgiu essa possibilidade, eu já sabia com quem conversar. Foi uma escolha bastante direta. Outros vinhos exigiram um trabalho muito mais complexo. O ponto em comum foi que todas as escolhas partiram do consumidor. Não criamos os vinhos pensando no meu gosto pessoal ou apenas no gosto de Neymar. Começamos pelo mercado e trabalhamos a partir dele.
Como essa preocupação com o consumidor influenciou a definição das diferentes linhas?
Pensamos em diferentes perfis de consumidores. Há quem esteja começando a beber vinho e procure algo acessível, quem já conhece um pouco mais e está disposto a pagar um valor maior e quem busca vinhos de categorias superiores. Cada segmento tem expectativas diferentes. Por isso, o trabalho de seleção também foi diferente para cada faixa. No caso dos vinhos de entrada, por exemplo, precisávamos oferecer qualidade, volume e consistência dentro de um preço acessível. Isso nos levou ao Chile, considerando também os custos logísticos. O objetivo é que alguém que esteja tendo o primeiro contato com o vinho tenha uma experiência positiva.

O Albariño e o Châteauneuf-du-Pape chamam a atenção por serem escolhas menos óbvias. O que motivou essas decisões?
O consumidor intermediário é um dos mais difíceis de agradar. Ele já conhece algumas uvas, começa a se interessar pelas regiões produtoras e presta atenção nas informações do contrarrótulo.Eu precisava pensar em algo que despertasse o interesse desse público. Poderíamos ter escolhido um Chardonnay, por exemplo, mas seria uma opção mais óbvia. O Albariño surgiu dentro dessa reflexão, considerando o perfil do consumidor, o mercado e os preços. É como montar um quebra-cabeça: cada vinho precisa fazer sentido dentro do segmento para o qual foi pensado.
E no caso do Legacy, o gosto pessoal de Neymar teve algum peso?
Sim. Nesse caso, foi importante entender o que Neymar gosta de beber. Eu queria que ele gostasse do vinho e tivesse prazer em compartilhá-lo com os amigos. Mas o mais importante continuou sendo o consumidor. Precisávamos conciliar o gosto de Neymar com aquilo que o público brasileiro dessa categoria procura, considerando também meu conhecimento das regiões e dos produtores. Foi um trabalho complexo. Um projeto que poderia levar aproximadamente um ano acabou sendo desenvolvido em seis meses, porque dediquei muito foco a ele.
Neymar ou algum familiar participou diretamente da escolha dos vinhos ou da elaboração dos blends?
Não. A responsabilidade pela seleção dos vinhos foi inteiramente minha. Essa era uma das condições do meu trabalho.Depois que concluí a seleção, os vinhos foram enviados para Neymar e sua família degustarem. O retorno foi muito positivo, eles gostaram bastante, mas não participaram diretamente das escolhas. Acredito que cada pessoa tem sua especialidade. A minha é o vinho. Isso não significa que, futuramente, não possamos desenvolver algum projeto com uma participação maior da família. É uma possibilidade que já considerei.
Existe uma personalidade Neymar traduzida nesses vinhos? Qual é o conceito da marca?
No caso do Legacy, existe essa ligação mais direta com o gosto pessoal dele. É o vinho que mais representa suas preferências. Mas o conceito da marca é mais amplo. Temos três objetivos: oferecer ao consumidor uma excelente relação entre qualidade e preço, celebrar a carreira de Neymar, especialmente sua passagem pela França e pela Espanha, e fazer o bem. A parte social foi uma das condições que estabeleci para participar do projeto. Uma parcela de cada garrafa vendida é destinada à caridade. Para mim, esse compromisso era fundamental.
O que você gostaria que uma pessoa sentisse ao abrir uma garrafa desses vinhos pela primeira vez?
Quero que as pessoas gostem dos vinhos, fiquem felizes com a compra e tenham vontade de comprar novamente. Já recebo mensagens de consumidores dizendo que gostaram muito e que pretendem voltar a comprar. Algumas pessoas até enviam fotografias com os carrinhos cheios de vinho. Isso é muito gratificante. Quando alguém compra um vinho que selecionei e gosta da experiência, sinto que fiz bem o meu trabalho. Mas também faço questão de reforçar a importância do consumo moderado. Quero que as pessoas aproveitem os vinhos, que tenham prazer em bebê-los, mas sempre com moderação.
Uma marca associada a uma celebridade naturalmente chama atenção, mas o consumidor de vinho é exigente. Como transformar visibilidade em credibilidade?
Acho que muitas marcas não dão certo porque não existe uma conexão verdadeira com o profissional responsável pelo produto. Algumas pessoas querem apenas aproveitar a visibilidade inicial e depois deixam o projeto de lado. Não acredito que seja essa a intenção de Neymar, e também não é assim que trabalho. Meus projetos são de longo prazo. Tenho trabalhos que desenvolvo há oito, dez, doze anos. Não gosto de fazer algo apenas para chamar atenção por um momento. Nesse projeto, já penso nas próximas safras e em como manter a qualidade dos vinhos.
Então o principal desafio para as próximas safras será manter a qualidade alcançada?
Exatamente. Meu desafio é manter a consistência. Acredito que os vinhos que temos hoje estão em um nível excepcional dentro de suas propostas. Alguns ainda vão evoluir naturalmente, mas minha preocupação é garantir que o consumidor encontre a mesma qualidade nas próximas safras.
Hoje vemos cada vez mais celebridades entrando no mundo do vinho. Na sua visão, isso ajuda a aproximar novos consumidores?
Neymar tem uma capacidade muito grande de atrair pessoas, especialmente o público jovem. Se ele conseguir despertar esse interesse e nós oferecermos vinhos de qualidade, podemos fazer algo positivo para o setor. A ideia é que pessoas que ainda não bebem vinho, ou que estão começando a conhecer esse universo, tenham uma boa primeira experiência. A notoriedade pode atrair o consumidor, mas é a qualidade do vinho que vai fazer com que ele goste e queira comprar novamente.
Mais informações sobre a marca Le Prince no site oficial da marca.





